segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Layers

Antes deles se conhecerem, ele aprendeu a admirá-la somente pelo que não via do lado de fora do casulo.
Era límpida. Simples demais para ser qualquer coisa que o impressionasse.
Estava longe, estática a ponto de não deixá-la mexer os lábios pra fazer-se verdade. Uma impostora, da mais alta categoria.
Era engraçado imaginá-la se equilibrando naquele salto, passando a sensação de ser uma fortaleza inquebrável. Era engraçado fazê-la se desequilibrar entre palavras decoradas e corar de vergonha tentando animar em notas perfeitas aquele que mesmo o mais incapaz classificaria como improviso.
Quando ele chamava, ela sempre vinha. Um pouco mais desconfiada do que parecia ser, mas impossibilitada de negar. Era fácil notar o cuidados dos seus dedos nas respostas. Era fácil notar que o casulo era só a primeira camada de uma crosta difícil de penetrar.

Antes deles se conhecerem, ele lhe parecia um cara meio estranho. Estranho principalmente por parecer se interessar um pouco mais que a verdade. O que a atraía como um imã era o desafio. Um desafio que só existia para ela e, tudo bem, já parecia mesmo o bastante para o que tinha ali. O conhecia por palavras singelas e somente as palavras já a fazia perder o ar. Ela podia o imaginar cheio de defeitos. Todos aqueles que ela mais odiava em um cara. Rezava para que tivesse todos eles e assim podia quase sentir seu hálito ali do lado. Existindo. Era engraçado notar como o ciúme surgia sem ela querer, logo ela que se orgulhava tanto em nunca ter do que se enciumar.

Se conheciam pelo o que não viam. Nenhum dos dois, nem lá, nem cá.
E isso não era graça para ninguém, mas apenas uma imposição do destino.
Uma imposição que não merecia ser questionada, ao menos que fosse eliminada para o resto das suas vidas.

Nenhum comentário: