segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Releitura


Eu conheci a Fernanda quando eu tinha 14 anos. Já foram ligeiros 10 anos.
A primeira vez que eu descobri que seríamos amigas foi quando ela me convidou para ir a festa do primo dela Rex e depois fui dormir na casa dela. E como eu não tinha roupas alí comigo, ela me emprestou uma calça bege e uma blusa azul.
Daquela noite para frente, dividimos muitas roupas, histórias, lágrimas e segredos.
Com 16 anos, mudei para Vitória e chorei muito quando me despedi dela. Achei que a nossa amizade ia ficar enterrada debaixo daqueles paralelepípedos do bairro Conceição.
Mas isso não aconteceu. Trocávamos cartas e horas no telefone. Eu vinha no fim de semana e era com ela que eu falava. Ela comprava os ingressos e eu vinha para as festas.
Quando eu entrei na faculdade, foi com ela que comemorei. Ela foi a minha madrinha de casamento e, pela cumplicidade que tínhamos, achava que poderíamos ficar anos sem nos vermos e que quando nos olhássemos, voltaríamos a ser amigas como sempre fomos.
Esse fim de semana a Fernanda veio na minha casa. E, por mais amigas que somos, não estamos mais na mesma frequência. Eu am. Ela fm.
A Fernanda tem novas amigas que querem as mesmas coisas que ela agora. Que falam o que ela quer ouvir, que conseguem estar com ela onde ela precisa.
Eu já não consigo mais acompanhar as músicas bahianas que tocam na rádio, já não uso saia tão curta e nem me preocupo se tem alguém olhando para mim. Não me importo mais se meu cabelo está desarrumado ou se serei mal falada pela vizinhança. O que eu gosto eu gosto e pronto. Não preciso mais me forçar a gostar de nada.
Ela nem se importa como eu estou crescendo na Ponto ou quanto eu ganho por mês. Prefere um show da Ivete ao "apartamento show igual da Ivete". Quer malhar para ser desejada pelos meninos enquanto para mim, basta entrar na calça 40.
E quando eu vi a Fernanda esse fim de semana, me bateu uma tristeza estranha.
Ela parecia triste, emburrada. Não me contou que estava ficando com esse ou aquele. Queria ficar no msn sabendo das novidades das novas amigas. Falou uma ou duas vezes sobre a "nossa galera" que eu não estava nela, disse nas fotos do orkut que o tempo não separa uma forte amizade... Será mesmo? Ela tem novos amigos e novos desafios. Eu tenho um novo marido e novas realizações. Ambos ocupam tempo e amor nos nossos corações. Falta segundo para a nossa amizade.
Senti que a nossa amizade virou uma carta antiga que você recebe, lê algumas vezes e depois guarda no armário . Não que você a queira mal, você a quer sempre com você, mas deixa que o tempo a torne amarelada e recorre aos seus emails quando você sente saudade dos seus novos amigos.
Na hora de ir embora a gente se abraçou e por mais que apertássemos no abraço, a lacuna entre nós continuou.
A verdade é que a gente não quer, mas estamos nos separando.

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