domingo, 26 de agosto de 2007

Caindo a máscara!

Sempre fui considerada uma boa aluna. E sempre me irritei por causa disso.
Sempre que tinha reunião na escola, a minha mãe não era convidada, porque só precisavam ir os pais daqueles que não tinham conseguido tirar a média e eu, nunca consegui não tirar.

E o fato é que tenho que admitir que matemática, educação física e desenho artístico nunca foram o meu forte e, para manter essa média exemplar, eu contava com a ajuda de uma equipe fortíssima no backstage.

Na oitava série, eu levei um dever de matemática para casa. E o problema realmente virou um grande problema porque eu não sabia resolvê-lo. A Tia Regina assumiu o posto de me ensinar como é que se fazia.
E era X para cá, Y para lá que um problema que era para ser resolvido com uma simples equação de somar, acabou se transformando num logaritmo de X com base 10 elevado á oitava potência de Y. Eu achei estranhíssimo que a resposta do meu "cálculo" desse uma sigla e não um número. Mas nunca duvidei que estava certo.
Levei a solução para a sala de aula e "recitei" , lá na frente com um giz na mão, todos os processos ensinados pela Tia Regina. A cada passo executado um susto da professora e uma careta dos alunos. Terminei a oitava série na Cooperativa Educacional de Linhares com a média 10, muito respeito adquirido e com a aposta de futuro garantido como genia dos números depois disso...

Todas as minhas atividades de educação artística era a minha mãe que fazia e a Tia Míriam fazia as da Tayná. Eu sempre me perguntava como que a professora nunca desconfiava daquilo porque não era possível que uma menina que, durante as aulas não consegue desenhar um O com a tampa da panela possa fazer uma "grávida pobre, com o mapa do Brasil na barriga, carregando um monte de filhinhos nas costas". Acontece que ela nunca falou nada e eu também nunca perguntei. E para a classe inteira, eu fazia.
Uma vez houve um concurso de desenho do professor Abner, em Linhares. Podíamos desenhar o que quisemos, contando que a imagem fossem compostas por figuras geométricas. A minha mãe optou por um casal de chineses antigos, somente em grafite, esfumaçados na laterais e com uma grande ousadia: um coração que formava a boca. Acontece que o coraçãozinho não fazia parte da lista de figuras do Prof. Abner e gerou protestos na sala de aula dos alunos e das outras mães que haviam desenhado para eles... Mas não teve jeito, o talento da desenhista era tão evidente que, mesmo com o coração (que acabou virando licença poética) ganhei o primeiríssimo lugar. Uma vitória que foi dela.
As capas dos meus trabalhos eram as mais esperadas do bimestre. Sempre coloridas, com um conceito legal, retrôs, com um toque de modernidade. Um dia, fiz um trabalho sobre vitaminas. A capa foi feita em papel vegetal roubado do escritório da tia Regina, e tinha uma frutas amontoadas e, bem vermelho e suculento na frente, uma melância.
Quando a professora me entregou de volta, havia um lembrete: " Julia, o conteúdo está razoável, mas a capa está espetacular. Te dei 10 pelo capricho e peço que, por favor, me deixe ficar com a capa para usar de exemplo nas outras salas de aulas. Obrigada, Professora Gleides."

O papai era o "fazendor" oficial de cartazes para a apresentação dos seminários, que sempre aconteciam nas semanas de finalizar o semestre. Eu montava o que precisava escrever e passava para ele, que preenchia o papel cenário amarelo de letras azuis, pretas e vermelhas.
Todas as vezes eu perguntava se ele precisava de um lápis, uma régua ou uma reza, mas ele sempre dispensou. Escrevia tudo em fração de segundos, retinho e com letras que variavam entre pequenas e grandes.
Uma vez, depois que apresentei um seminário de Redação, a professora pediu para o grupo se retirasse mas que eu permanecesse na frente da sala, segurando o cartaz. Ela começou falando que o cartaz ali exposto era o mais belo exemplo de outdoor: que as letras, as proporções, as cores eram as mais equilibradas que ela já vira. Rezei para que ela não me perguntasse quem tinha feito, mas ela perguntou e eu, diante da sala toda, tive que dizer que tinha sido eu.

Todas as vezes que esses trabalhos eram expostos eu começava a chorar. Todos entendiam que era de alegria, mas era de vergonha e orgulho. Calada e entre lágrimas, sempre pedi a Deus que me desse qualquer outro talento, para que um dia, pudesse emprestá-los a minha tia, minha mãe e meu pai.

Por essas e por muitas outras confesso, sou uma fraude!

PS! Esse texto é porque a Tia Regina começou a dar aula para a faculdade de arquitetura em Aracruz. Logo, logo, o privilégio que só eu e a Mila tínhamos ganhará o mundo. Só espero que ele saiba reconhecer com o respeito que ela merece.

Um comentário:

Anônimo disse...

Jujuba, meu irmão também fez um cartaz criativo que representava uma campanha num curso que fiz. Esse cartaz resultou no meu primeiro emprego (depois de ser secretária da igreja, claro!). Sem maldade tá tudo certo, principalmente porque em família uma mão lava a outra. O bom mesmo não é fazer tudo com maestria, mas certamente é dizer a verdade, mesmo que seja um tempão depois. Bj da Cice