segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Supremo

Ontem eu senti um arrepio na espinha que nunca tinha sentido antes.
E foi uma agradável surpresa sentir que as lágrimas desciam, sentir que o coração explodia de tanta emoção.
Fui a um concerto. Em cima, uma tela passava os clássicos dos vídeos games. Uma tempestade de cores, de formas, de sensações e de palpitações. Na frente, um garoto orgulhoso e ansioso. Me batendo, puxando meu cabelo, saltitando da cadeira. Exatamente eu na frente do meu Fofão.
Em baixo, uma orquestra linda.
Regendo, um maestro não tão velho, não tão apático e não tão simpático.
Na mesma ordem, violinistas tocavam os arcordes, forçavam os dedos nas finas cordas e inclinavam-se no mesmo compasso para alterar a página da partitura. Sem perder a cadência. Sem perder a postura.
Aquele instrumento que nem sei o nome e que até então não tinha nenhum valor para mim, toca profundamente meus tímpanos. Vejo de longe uma baqueta com uma bola pesada da ponta, batendo em um piano sonoro de placas de metal.
A arpa estava bem na frente. Magnata do palco. E como era delicada. Finos dedos dedilhavam a sonata. A arpa queria falar e falou.
Ao fundo, um coral de vozes que sentava e levantada. Ora cantava, ora calava. Das suas bocas, uma voz saía suave e pedia permissão para tomar conta totalmente da minha mente e do meu coração.
Um jovem de não sei quanto anos, meio tímido e meio feliz entra no palco e faz do piano seu amigo pessoal.
As pessoas aplaudem, abrem a boca e esboçam um sorriso.
Se olham frente a frente nas mesas e compartilham juntas aquele sentimento que vai do discrédito ao êxtase em segundos.
Os olhos brilham, os dentes se rangem.
Aquele sentimento vivo que invade meu coração e me faz deslumbrada com aquele universo de cores, sons e poemas instrumentais.
Ontem não tive vontade de aplaudir como faço para tudo que gosto. Não queria aplaudir porque não queria aque acabasse. Eu poderia ficar a minha vida inteira ali, calada, com o cotovelo apoiado sobre a mesa e a cabeça descançada sobre os punhos.
Ontem não tive vontade de ver o rosto do Regente, de apertar a sua mão e manifestar minha admiração. Queria continuar a observá-lo de longe, de costas para mim. Com seu poder de me fazer entender poesia sem lê-la.
Ontem não tive vontade de ser a Soprano e nem de tê-la na minha casa cantando para mim. Eu queria vê-la lá no palco, com seu vestido preto, sua cara de bruxa de história infantil e me deixar encantar por aquela voz fina e suave.
Diferente de tudo que já vivi na vida, ontem não tive vontade de ser um deles.
Ontem não tive vontade de conhecê-los.
Ontem não tive vontade tocá-los.
Eu preferi deixá-los lá, em cima do palco. Mágicos e Supremos em cima de um pedestal.

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